Permita-me
George Orwell ( que Deus o tenha ) usar de seu gênero literário, guardadas as
devidas proporções e evidenciando minha limitação, para contar minha fábula. Qualquer semelhança com a
história política de nossa cidade é mera coincidência.
No princípio
era apenas um bicho, não sabemos que bicho era, por que não precisa saber
mesmo, porque era ele só. E assim sendo, não importa que bicho seja. O que
importa é ser bicho. Bom, de certeza mesmo, sabemos que era bicho grande,
porque ninguém chega para dominar feito um rei se não for grande como o cargo
merece. Ninguém ousava falar do Bicho Grande, como foi chamado, pois eram
outros tempos, em que não se sabia nada sobre oposição e fazer isso era proibido.
Era viver a vida assim como ela é e está muito bom. Pelo menos estamos vivos.
Um dia o Bicho
Grande não entendeu que já não era tão grande, tão absoluto e que os tempos já
eram outros. Foi surpreendido então pelo urso que chegou muito forte e com a
simpatia de todos os bichos de casta inferior – os pequenos bichos, aqueles que
se sentiam explorados e esquecidos. Juntos derrubaram o Bicho Grande e
colocaram o Grande Urso no poder. Foi só alegria! A gora os bichos estavam
representados, pois o Grande Urso emergira dos pequenos bichos e agora ia
tornar a vida melhor. Mas não foi bem assim. No começo todos os bichos tiveram
paciência, mas muitos eram esquecidos pelo Grande Urso, que mesmo assim gozava
de muita popularidade. Mas os filhos do Bicho Grande lhe faziam sombra e
continuamente tentavam convencer os pequenos bichos a largarem o Grande urso
acusando-o de mau administrador e mais parecidos com as antas e as arapongas, e
seguirem a Águia Voadora que os levariam ao caminho da evolução. Mas o Grande
Urso os subestimou. Para ele, era impossível que os bichos que o levantaram tivessem capacidade de o derrubar
então. E continuou seu governo de forma medíocre como que nada mais pudesse ser
feito. Naquele momento, algumas coisas até pioraram e seu poder foi grandemente
ameaçado pela Águia Voadora. Em um combate a Águia lhe deixou enormes
cicatrizes nas costas, mas o Grande Urso resistiu por mais algum tempo. Contudo, os pequenos
bichos ficaram fascinados pelos voos rasantes da Águia Voadora. Sua envergadura
era algo de espetacular que fazia os pequenos bichos ter esperança de serem
melhores e se tornarem bichos médios. Os tempos novamente estavam mudados e não
demorou até que a Águia Voadora se tornasse seu líder.
A Águia
voadora conhecia muito bicho importante, o Falcão, o Tubarão e até mesmo o rei
Leão e por isso conseguiu muitas coisas para os pequenos bichos que até se tornaram
maiores (sem se tornar médios). Claro que muito bicho pequeno foi esquecido. E agora,
como os tempos eram outros todos queriam estar à mesa da Águia Voadora, mas era
muito difícil de chegar a sua casa, pois, ou estava em reunião com o Falcão, o
Tubarão ou o Leão ou estava na altura de sua casa da montanha. E eis que chegam
novos tempos e aparece o Cão Vigilante prometendo que o poder deve descer e que
a Águia Voadora está tão gorda (porque tem o rei Leão na barriga) que já não
impressiona com seus voos e que por estar tão distante deixou os pequenos
bichos em situação de insegurança o que ele promete resolver.
Então os
bichos estão em dúvidas e não sabem se permanecem com a Águia Voadora, mesmo
desgastada ou se preferem o Cão Vigilante, mesmo sem saber do que ele é capaz.